DOUGLAS NORRIS: por Ruth Sprung Tarasantchi

Douglas criou um mundo só seu. Pintava, desenhava e gravava pela necessidade intrínseca de exprimir o que lhe chamava a atenção e tocava o coração. Não seguia escolas. Não pode ser considerado um autodidata, pois possuía conhecimentos sobre arte, tendo frequentado o ateliê do pintor e escultor Raphael Galvez por várias décadas. Não pintava pensando no público e pouco expôs em vida. Trabalhou  sempre a partir da necessidade de captar seres ou momentos que o impressionavam.
Douglas não se preocupava com detalhes. Com rápidos cortes da goiva, retirava o essencial da madeira para conseguir os tons claros da imagem,  superfície a seguir recoberta de tinta e impressa em papel de xilogravura. Seu olhar captava rostos típicos da cidade de São Paulo, onde nasceu e morou por toda a vida. Rostos muitas vezes tristes, de gente sofrida, de bêbados, de gente do povo. O preto e branco transformam-se em colorido nessas gravuras, à medida que olhamos e sentimos o que o artista quis transmitir.
Em suas paisagens paulistanas colocou vermelhos, azuis e ocres potentes que, combinados ao negro, transmitem intensidade e força. Quando reproduziu cenas com animais, usou cores sóbrias e traços firmes, rápidos, essenciais. Sentimos o trabalho de Osvaldo Goeldi  impresso em sua memória, exercendo sobre ele influência.
Transportou as paisagens da gravura para a tela. Aqui, as pinceladas de tinta gorda são largas e rápidas. Cores misturadas transmitem um quê de sujidade, recriando os bairros pobres e malcuidados de São Paulo. Nestes trabalhos, percebemos a lembrança do mestre Galvez, com quem conviveu por tantos anos.
Douglas sintetiza, dramatiza, toca-nos o coração. Eis um artista que merece ser conhecido e apreciado, ocupando o lugar que lhe cabe no panorama da arte brasileira.

CARTOGRAFIAS HUMANAS - por Hélio Schonamnn

Douglas Norris foi um representante da arte paulistana naquilo que ela tem de mais subterrâneo. A mostra Douglas Norris: cartografias humanas constitui uma primeira iniciativa, póstuma, destacando recortes significativos de sua obra. Uma exposição que visa a estimular pesquisas sobre um artista irredutivelmente recluso, que se tornou virtualmente desconhecido em seu próprio meio.
Em seus desenhos, gravuras e pinturas, drama e lirismo adensam-se mutuamente. O olhar de Douglas busca abrangência na compreensão do humano, criando um universo de imagens que amplia nosso espaço de reconhecimento e identificação com o outro. São Paulo é um de seus focos preferenciais. Os retratos que realizou traçam um mapeamento sensível da população paulistana, com ênfase na pluralidade étnica, cultural e social. Essa atração pela diversidade resulta na montagem de um rico mosaico humano, vinculando sua poética à urbe construída por levas de imigrantes. Mas tal abordagem não se reduz ao registro da colorida tipologia local. Douglas vai além: busca no Outro a base para a construção de uma cartografia afetiva que o localize no mundo. Mergulhando na alteridade, encontra caminhos para realizar ampla reflexão sobre a condição humana.
Enquanto São Paulo se agiganta como paisagem das massas anônimas que hoje conhecemos, o artista a focaliza na perspectiva das múltiplas existências individuais que a constituem. A prostituta, o mendigo, o bêbado; Gino e o Sr. Jacó; o ferroviário, o faixa-preta, o sambista: cada um dos retratados apresenta-se em sua força e fragilidade, provocando empatia no observador. De um raro depoimento seu, extraímos trecho que ilustra os laços que o vinculam aos modelos: “Perto do rio Tietê, retratei uma garotinha de nome Ondina. Um rapaz, de pouca fala, ficava nos observando. Convidei-o a ser retratado. Um dia, a bonequinha da menina caiu dentro do rio e o rapaz, mesmo vestido, pulou dentro da água para salvá-la. Voltei lá diversas vezes para desenhar e descobri que aquele rapaz era bandido. Ondina me deixou a boneca de presente e o rapaz, seu isqueiro. A arte muda tudo” (“Fragmentos do artista: Douglas Norris”, de Luiz Ricardo Rufo). A relação entre arte e lugar ganha, nessa narrativa, densidade e significação: Douglas entende seu papel não apenas como o de observador e intérprete da vida, mas como de sujeito ativo, que interfere na dinâmica da existência.
Sua obra é resultado do cruzamento de diferentes referências. A trágica metafísica da solidão, plasmada por Edward Munch – que projetou na relação homem/natureza os dramas da existência e da consciência – é uma delas. Não por acaso, os jovens artistas alemães do início do século XX – particularmente os membros do Die Brücke – deixam nele também sua marca, principalmente no que se refere à expressividade do sinal gráfico e à utilização desabrida da cor. Mas Douglas foge às deformações hiperbólicas do grupo. Seu desenho se vale de deformações expressivas sim, mas elas não elidem a volumetria estrutural da imagem.
Identificamos de imediato vínculos entre seu universo e o de Oswaldo Goeldi, assim como reconhecemos a distância poética que separa os dois artistas. A luz que banha a gravura de Douglas revela a forma em plenitude, ao contrário do luminismo dramático e noturno de Goeldi. A abordagem do retrato individual marca bem esse distanciamento, assim como sua visão da cena paulistana: edifícios que lembram pesados blocos monolíticos dominam esses cenários, enfatizando a escala mínima das figuras, impondo-se a elas – um conjunto que pode ser pensado como o avesso dos retratos, plenos de empatia. Na conjunção entre os dois polos, forja-se o humanismo do artista.
Mas Douglas não é somente o observador apaixonado de uma São Paulo em rápida transição. É atraído também por outra realidade: a da paisagem física e humana do litoral paulista, a ponto de se autointitular “caiçara por adoção e coração”. Essa identificação motiva a criação de imagens nas quais a praia e o mar não evocam, jamais, conteúdos exóticos ou tropicais, constituindo um habitat repleto de significados existenciais.
No desenho de Douglas, podemos identificar referências outras além das nórdicas.
O ensinamento dos mestres do primeiro Renascimento, como Giotto e Masaccio – que pensaram a forma em chave escultórica – se faz presente. Essa marca pode ser creditada
à convivência com artistas da “geração santahelenista”, particularmente Raphael Galvez, pintor e escultor que desempenha papel fundamental em sua trajetória, tornando-se grande amigo e orientador.
No extenso trabalho de pintura que realiza, a paisagem sobressai como um dos temas dominantes. Suas primeiras telas apresentam abordagem correlata à das xilogravuras, no que se refere à busca por clareza e solidez. Percebemos nelas sua admiração pelas obras de Aldo Bonadei e dos metafísicos italianos. Mas o desdobramento desse trabalho vai fazê-lo trilhar caminho diverso. Em telas realizadas na década de 1990, o cenário é constituído por um magma soturno, envolvente. Uma fatura visceral, mista de gestualidade e fusão, constrói a atmosfera pesada dessas imagens. Cabe destacar a assimilação que testemunhamos, aqui, das lições de Ernesto de Fiore. Mas o tom da série de pequenas e impactantes telas é bem mais intimista, denso e trágico, contrastando com a nota épica, expansiva e translúcida das pinturas de De Fiori. Esse conjunto crepuscular, em que o contraluz tem protagonismo, bem pode ser pensado como um réquiem à singular trajetória do artista.
Partindo do corpo-a-corpo com o cotidiano e do caldo de referências que o nutriu, Douglas Norris desenhou com nitidez uma tessitura pessoal de empatia e angústia, potência e fragilidade. Olhar nascido de olhares diversos. Olhar que se expande e se aprofunda em sua circunstância.


DOUGLAS NORRIS: cronologia

1923: Douglas Norris Nelsen nasce em 27 de novembro, na cidade de  São Paulo
1923–1945: Oriundo de família de muitas posses, devido à crise de 1929 passa da riqueza à extrema pobreza. Sua tia materna, que o criou, introduz Douglas  no universo da  arte. Música clássica, pintura e  literatura fazem parte de sua formação.
          Estuda em colégio público e mora na região do Paraíso, rua Vergueiro, onde convive com operários, imigrantes e seus filhos. Seus irmãos mais velhos, Roberto Carlos e Nadyr, também influenciam sua formação, principalmente o primeiro, militante comunista, preso sob o governo de Getúlio Vargas. Douglas irá se definir ao longo da vida como um humanista com simpatias pelo socialismo.
          Esportista nato, destaca-se em diversas modalidades: ginástica, musculação, luta greco-romana, salto ornamental e natação. Milita no Clube de Regatas Tietê.
1945–1954: Dedica-se à luta livre profissional para sobreviver e para poder aprofundar-se no canto lírico, carreira que se encerra precocemente, devido a problemas nas cordas vocais, que o leva a recusar convite para cantar na Itália.  Nesse período começa a dedicar-se ao desenho e à pintura como autodidata.
1955–1957: Trabalha como ator em diversas peças de teledramaturgia na TV Vanguarda (TV TUPY) e em filmes para cinema, atuando ao lado dos principais atores e atrizes da época, como Lima Duarte, Dionísio Azevedo, Alberto Ruschel, Lolita Rodrigues, Mazzaropi e Odete Lara. Em 1957, ganha o prêmio Governador do Estado, pela sua atuação no filme “Paixão de Gaúcho”, dirigido por Walter G. Durst e Cassiano Gabus Mendes. Paralelamente, continua suas pesquisas em desenho e pintura.
1957: É apresentado ao artista plástico Raphael Galvez, com quem muito  se identifica. Logo após esse encontro, abandona a carreira de ator e, para sobreviver, passa a ministrar aulas particulares de ginástica, atividade que exercerá ulteriormente. Inicia uma fase de trabalhos sob orientação de Galvez. Seu caminho será, a partir daí, voltado para as artes plásticas. 
1957–1985: Com o valor do prêmio recebido casa-se, em 1959, com Zuleika, sua companheira por toda a vida. Em 1962 nasce o filho do casal, Igor.
          Recluso, Douglas cultiva diferentes  técnicas: pintura, gravura, mosaico, escultura e desenho. Realiza extensa e contínua produção, sem interesse em divulgá-la ou comercializá-la. O trabalho em gravura estende-se da década de 1950 ao final da de 1970. O trabalho em pintura estende-se até os anos de 1990. O mosaico o ocupa por um período curto, episódico, mas intenso, durante todo o ano de 1973. O desenho é uma técnica permanentemente trabalhada, até poucos meses antes de sua morte.
1985- 1988: Após quase trinta anos de reclusão, realiza, em 1985, sua primeira exposição individual no SESC da Avenida Paulista – São Paulo. Em 1987 realiza a segunda e última mostra individual,  na mesma galeria.
          Comercializa  diversos trabalhos em Leilões de arte e galerias. Dois episódios, no entanto,  fazem com que retorne à reclusão: o furto de trabalho seu, exposto em galeria; a não realização de uma exposição de trabalhos por ele doados para importante instituição beneficente. A renda proveniente da mostra deveria ser revertida para a instituição, mas o compromisso de realizar o evento não só não é cumprido, como os   trabalhos desaparecem, não sendo mais localizados. Em função desses acontecimentos, retira todas as obras  expostas em galerias e leilões e desiste de realizar novas exposições.
1985–2010: Aposenta-se. Mantem o foco no desenho e na pintura. Essa segunda linguagem é mais explorada nas décadas de 80 e  90. Passa a escrever poemas e contos.
2010: Falece no dia 9 de setembro em São Paulo, após complicações cardiorrespiratórias
2011–2015: Suas obras participam de várias exposições coletivas do Projeto VI(VER), em museus, galerias  e centros culturais de  São Paulo, Atibaia, Caraguatatuba, Jundiaí, Guarulhos, Tatuí, Praia Grande e Botucatu.
2016: É realizada a primeira exposição individual póstuma, no Museu Histórico Paulo Setúbal, Tatuí, SP. Curadoria Hélio Schonmann

Mostra LUPA - apresentação


Hélio Schonmann


 A exposição LUPA é fruto de um processo,  iniciado no segundo semestre de  2012, no âmbito do projeto VI(VER) diálogo gráfico, com a realização de experimentos de desenho em relevo.  O grupo de  criadores com deficiência visual  coordenado por Lúcia Neto  – Ary  Francon, Marcelo Arruda, Gilmar Lima e Thiago Francisco – iniciou  em 2015 uma nova etapa  de trabalho, focalizando  a pesquisa  tridimensional e questões identitárias.  

Ao concebermos a mostra,  nosso principal objetivo foi dar visibilidade a universos sensoriais e sensíveis muito singulares. Esse propósito nos levou a uma abordagem  experimental no campo da fruição: convidamos o público a assumir posição inversa àquela  que está habituado, tendo contato  inicial com  os objetos através do toque. Num segundo momento, através da  audiodescrição  (na voz dos criadores).  Por fim, através  da observação visual.  A opção por priorizar o campo tátil  e  a informação por áudio –  neutralizando, temporariamente,  a atuação do olho –  coloca em evidência facetas  essenciais do processo de percepção da obra plástica: intuição, imaginação, raciocínio dedutivo, memória, emoção, sensações  não visuais.

 “Meios limitados (....) engendram formas novas, convidam à criação” escreveu  George Braque. O limite físico da  não vidência é pensado em LUPA numa ótica muito próxima àquela expressa pelo artista –  a partir de seu potencial transformador. Esse é um trabalho que busca  desconstruir hábitos e padrões arraigados de percepção, aproximando mais o observador do mundo que o cerca e daqueles que vivenciam esse mundo de forma muito diferente da sua.      

                                              

Exposição LUPA
Projeto de Lúcia Neto, realizado com pessoas com deficiência visual

Participantes
Ary  Francon | Marcelo Arruda | Gilmar Lima | Thiago Francisco

Curadoria
Hélio Schonmann

Produção gráfica
Sergio Kon

Setembro de 2015

Museu Histórico Paulo Setúbal 
Praça Manoel Guedes, 98, Centro, Tatuí, SP




Arte e Identidade - o trabalho de Thiago Vaz

Thiago Vaz é um artista inquiridor, extremamente atento a tudo que o cerca. Recordo-me de vários diálogos que tivemos sobre arte pública e traduzo aqui, em palavras minhas, o que entendo ser o eixo de suas reflexões: como desenvolver um processo orgânico de trabalho, coerente com o tempo e o lugar?
Entre outras questões essenciais ao fazer artístico, Thiago é particularmente sensível a temas referentes à identidade cultural. Mas na contemporaneidade, os limites entre cultura local e  global vão se tornando mais e mais fugidios, convertendo esse num dos temas mais  espinhosos e complexos da atualidade. A tecnologia que nos conecta, multiplicando redes de informação, tende a derrubar muitas fronteiras, criando novos laços e referências – fragilizando, por vezes, vínculos de pertencimento com o entorno imediato. Mas a inegável tendência a uma certa homogeinização comportamental, que testemunhamos em nossa era, não elimina diferenças culturais mais profundas entre contextos locais. A diversidade persiste, como fator de enriquecimento da vida humana.
Ser permeável à informação que nos vem de fora, sem perder de vista nossa singularidade: eis um desafio que só faz crescer, neste início de milênio. Dentre os jovens que se dedicam hoje, em São Paulo, a intervenções de rua, Thiago se destaca por sua decisão obstinada e corajosa por enfrentar delicadas questões identitárias. Destaca-se também por muitas qualidades que engrandecem e potencializam o natural talento artístico de que é dotado: capacidade de comunicação, independência, paixão, constância. É um artista consciente da realidade histórica na qual está inserido e da enorme responsabilidade implícita em toda e qualquer intervenção no espaço público. Sua postura e ação são plenas de inquietação e dignidade.



Hélio Schonmann


Ação Educativa 2013 - trabalho de Thiago Vaz